Empresas de seleção de gente andam conseguindo números absurdos de candidatos em relação a uma única vaga. O maior contingente de candidatos é de desempregados, e uma parte buscando novos desafios, até porque é grande o número de pessoas trabalhando em condições desfavoráveis, isto é, insatisfeitas, desmotivadas, e não apenas por salário.
Os portais de recrutamento e pré-seleção pela Internet, que exibem em minutos uma vaga e seu perfil para milhares de candidato analisarem, no Brasil ou no Exterior, apontam fabulosos números de respostas por vaga para que o contratante possa avaliar o que melhor se enquadra à sua realidade, conforme as competências requeridas.
É a realidade que marca a vida do trabalhador brasileiro. O país, que há anos vem obtendo crescimento pífio, não consegue gerar vagas nem mesmo para absorver o crescimento vegetativo, ou seja, aquele originado pelo próprio aumento da população. Uma ironia se pensarmos que os maiores dirigentes da Nação vieram do mundo sindical autêntico, reivindicativo e belicoso.
O jovem estudante fica atônito, não apenas para conseguir o primeiro emprego e até mesmo para escolher a carreira e formação, em qual curso investir, etc., dado que há oferta abundante em praticamente todos os segmentos de negócios e de atividades.
É bem verdade que existem vagas com perfis muito específicos, desenhadas quase sob medida, e aí as empresas reclamam não encontrar candidatos adequados, bem específicos para a sua realidade, exigindo um tempo maior para a prospecção no mercado, e mesmo abordagem junto a profissionais de empresas concorrentes, entre outras técnicas.
Prevalecendo a irrevogável lei da oferta e da procura a coisa fica preta para os empregados, e não apenas pela dificuldade natural de recolocação. As posições salariais começam a sofrer mudanças, para menos, embora as contratantes continuem a exigir uma relação expressiva de competências e habilidades.
A se efetivar essa realidade, coloca-se um outro novo duro golpe que o mundo do trabalho pode vir a sofrer, como que a concluir que, para continuar na ativa, tem que aceitar uma remuneração menor, dentro da ótica de que “é melhor pingar do que secar”.
A empresa que prevalece dessa situação pode estar, por outro lado, cometendo graves falhas na gestão de pessoas. Primeiro, sob a ótica legal, pois a legislação prevê remuneração igual para trabalho igual, executado com a mesma perfeição técnica (a diferença é muito difícil de provar, depois, na Justiça especializada).
Ao “rebaixar” salários fazendo a troca de profissionais, o clima fica ruim. Ninguém consegue fazer isso de uma vez só, e os trabalhadores remanescentes ficam receosos, desconfiados e desmotivados, sabendo que chegará seu dia, etc... Isso tem um custo, que também precisa ser pesado na hora da decisão.
Sabemos, também, que existem situações em que por erros passados a organização acaba ficando com despesas de pessoal desproporcionais às demais de seu segmento, portanto sem condições de competir em igualdade de condições em decorrência de custos mais elevados. Aí é mesmo uma questão de sobrevivência. Alguma coisa tem que fazer para ajustar. É mudar ou morrer, então “que vão os anéis para que fiquem os dedos”.
Mas, daí, a generalizar essa prática pela oferta de mão-de-obra já é uma prática oportunista que vai gerar a má fama da organização e também trará reflexos internos, com perdas que muitas vezes nem conseguimos bem avaliar.
Sempre é bom lembrar que vivemos num mundo competitivo demais, as informações estão “no ar”, disponíveis, e as tecnologias praticamente niveladas. Então, o que poderá diferenciar uma empresa da outra? Ora, o atendimento competente, a assistência técnica, a atenção, a flexibilidade e o cuidado das pessoas que representam a organização.
Esse cuidado é o algo mais, o diferencial. Se formos às compras e soubemos de antemão que os produtos e os seus preços de venda estão nivelados, onde vamos entrar? Certamente, naquele estabelecimento que tenha pessoas treinadas e estáveis, com boa vontade, alegres e estimuladas por um clima interno favorável, pois na cabeça desses empregados está registrado que não estão sendo, ali, explorados pela regra da oportunidade, e sim fazendo parte de um negócio, com missão, visão, valores e metas atingidas.
Pensem nisso.
Sobre o autor: Celso Gagliardo é profissional de Recursos Humanos e Comunicações, graduado em Direito e especializado em Recursos Humanos, habilitado consultor de Pequenas e Médias Empresas. Prestou serviços como técnico, executivo ou consultor a diversas empresas nacionais, entre elas Romi, Ripasa, Fupresa, Tatuzinho, Eletrometal e Dedini. Atualmente está no Grupo Construtora Estrutural Ltda. Foi redator de jornal, é palestrante e treinador, com foco na formação de líderes modernos, membro da AJARH, Associação de Profissionais de Recursos Humanos da região de Jundiaí-SP. É também colunista semanal do jornal Todo Dia, da região de Americana, SP, e diretor da PH - Patrimônio Humano, Consultoria e Serviços.