Somos expectadores privilegiados dos avanços da tecnologia, a colocar na mão do homem artefatos que permitem nos mantermos antenados, permanentemente.
A vida ficou mais fácil, materialmente falando. O acesso aos bens está mais democratizado. Industrialização, pesquisa e competitividade, conquanto sugam-nos até o fundo d’alma, colocam no mercado bens, produtos e serviços diferenciados e acessíveis às mais variadas camadas da população.
Participamos de evento entre profissionais de Recursos Humanos. Muita gente, ambiente amplo, aquela parafernália de som, luzes, vídeos, palco, microfones sem fio, palestrantes. A platéia, formada quase que exclusivamente por profissionais jovens e de meia idade, marcava presença para ouvir os facilitadores-gurus, refletir, pensar diferente, e certamente se oxigenar.
Pesquisador informal e atento observador das cousas, pude observar que mesmo nos ambientes plurais e de escolarização tipicamente superior as pessoas/profissionais não se “desligam” jamais, ficam conectadas aos seus infernais aparelhinhos que de vez em quando acendem luzes e disparam sons variados, clamando por um alô-atendimento.
Musiquinha aqui, toques e acordes ali. Uma voz atendendo e tentando fazer-se suave, mas importunando vizinhos. Realidade pura: Gente em seminário, mas também trabalhando fora. Um olho no gato, e outro no rato. Aqui, no externo, mas opinando com o que vai lá dentro do escritório. Determinando. Ou compartilhando responsabilidades.
Ausência-com-presença se fazendo confundir através de um minúsculo aparelho que dispensou o fio, e como num quase milagre se nos transporta a quilômetros de distância, às vezes centenas deles, ou milhares, mas se faz presente, ali, pertinho de você, destino certo. Integrando uns, açodando outros.
Gente que se ilumina, por dentro pela curtição do novo brinquedo que se lhe serve, e por fora com a luz do visor a destacar sua leve silhueta naquele ambiente de penumbra. Espetacular e revolucionário. Tão simples agora, e tão impensável há pouco tempo atrás. Gente ouvindo o palestrante compenetrado, mas baixando e-mails, e.... acreditem, respondendo-os com desenvoltura, aproveitamento ótimo de tempo e dos sentidos, quase todos simultaneamente.
Multifunção, produtividade máxima: Ouço, leio, escrevo, calculo, pesquiso, gravo, filmo, fotografo e até assisto TV. E se me transporto, alhures. Maravilhoso mundo novo.
Esses aparelhos de comunicação social e corporativa - verdadeiras algemas eletrônicas - nos pegam nos mais variados locais e situações. Nos sanitários, na rua, no restaurante, no carro, cinema, igreja, sons vindos dos mais variados cantos - de chefes, colegas, fornecedores, amigos, familiares, vendedores. E nos vimos na obrigação de não desligar, interagir para não perder o bonde e ficar mal na fita, para não sucumbir à velocidade da decisão, ou da postergação compartilhada.
Ruídos que por vezes incomodam, que atrapalham os circunstantes, mas que satisfazem-nos pelo dever cumprido, ou mesmo pelo ego polido. Um pouquinho de status, exercício visível de poder, invenção do mundo “hight tec”, como diriam aqueles.
Tanto quanto as teses dos apresentadores, o espetáculo dos aparelhos celulares chamou nossa atenção, naquele dia. E me irritou um pouco, também. O meu aparelho estava quietinho, escondido no bolso interno do paletó, corajosamente desligado em respeito ao coletivo, a espera do intervalo para rápida consulta.
Abri por instantes meu saco de maldade e fantasiei o surgimento, em breve futuro, de um contraponto a esses braços que nos alcançam indefinidamente: Gaiolas de proteção, ambientes isolados do mundo exterior a cortar qualquer possibilidade de acesso remoto permitindo-nos concentrarmos melhor na atividade da hora. Sem causar desconforto aos vizinhos. Sonho das autoridades para dificultar o crime organizado que mediante a utilização danosa desses mecanismos modernos, consegue comandar da solidão dos presídios verdadeiras redes de marginalidade, oficinas do mal.
Sou um usuário dessa parafernália, lógico. Procuro ser o mais discreto possível, mas nem sempre consigo. E confesso que muitas vezes o intruso sem fio que nos salva também nos impõe adrenalinas que bem poderiam ser evitadas. Turbinam nossas mentes e corações.
Somos internautas, multifuncionais e vivemos antenados, guiados pela disponibilidade da tecnologia, dos GPS e GRPS a nos direcionais com vozes do quase-além. Com bips, hits e ringtons, com SMS e torpedos, sites, portais, blogs, twitters... Tudo pela velocidade sem fim, pela conectividade.
Estamos correndo à procura do mais com menos, do melhor continuado. Somos bombardeados loucamente pela influência da informação a cada minuto, do fato novo que inquieta e faz o nosso conhecimento de ontem, obsoleto hoje. Isso tudo está a nos exigir capacidade de discernir o que serve e o que pode e deve ser descartado de pronto. Começa a ser supervalorizado o poder da síntese, da utilidade, de ver, sentir e separar o joio e o trigo a um toque digital.
Temos que deletar rapidamente o que não se nos aplica, para deixar o HD livre para os arquivos e aplicativos indispensáveis. E assim, conseguirmos o milagre de ainda viver bem conosco mesmo, mansidão de alma, sem os efeitos deletérios que o bombardeio da instantaneidade e as antenas invisíveis nos trazem. Equilíbrio indispensável.
Reflita sobre tudo isso, e sobre o que mudou em sua vida com a chegada do onipresente aparelho de telefonia móvel.
Sobre o autor:
Celso Gagliardo - é profissional de Gestão de Recursos Humanos e Comunicações, formado em Direito e especializado em RH, tendo prestado serviços e gerenciado o DRH de importantes empresas nacionais. É diretor da PH, Patrimônio Humano, Consultoria e Serviços, e atualmente presta serviços ao Grupo Estrutural.