Faz duzentos anos que D.João VI revogou um alvará de 1.785 que proibia a fabricação de produtos manufaturados na colônia de Portugal, criando, então, a indústria brasileira.
De lá para cá, muito foi construído, muito mudou, muito resultado foi gerado.
Não podemos falar em resultados se não falarmos de pessoas. Não podemos falar de empresas e de pessoas se não considerarmos a atuação e a contribuição do RH no contexto.
Nas últimas décadas, o crescimento acelerado do país e as transformações do mundo causaram significativas mudanças nas empresas e, por conseqüência, no trabalho e nas pessoas. RH veio remando junto com essa enxurrada de acontecimentos, transformando-se, às vezes de maneira mais rápida, outras nem tanto, mas também mudando.
Nesse momento, empresários percebem que o novo conceito de negócio ultrapassa as fronteiras do lucro e as geográficas. Estão conscientes que as empresas precisam ser sustentáveis no sentido mais amplo, globalizado, além do econômico. Precisam ser empresas que pratiquem relações éticas com os funcionários, com os clientes, com os fornecedores, com os acionistas, com a comunidade, com o mundo. Outra empresa, outra relação de resultados.
As empresas não vivem mais sozinhas, dependem de outras para sobreviver, dependem de uma malha de produção e de resultados associados. Também se fundem, misturam povos, raças, crenças, valores; convivem e produzem simultaneamente com culturas diferentes em diversos locais.
Clientes, que são, acima de tudo, pessoas, começam a avaliar e escolher os produtos de maneira também diferente. Escolhem produtos éticos, de origem sustentável, que não agridem o ambiente, que respeitam a vida, considerando também o respeito à vida dos animais. Elegem empresas que respeitam as pessoas que nelas trabalham, que respeitam e integram as minorias, que respeitam a diversidade cultural em vez de unificá-la, que constroem um DNA diversificado mas também único, porque as pessoas são iguais e devem ser bem tratadas e respeitadas em qualquer lugar do mundo. E as empresas são feitas de pessoas e para pessoas.
Ser uma empresa sustentável é promover a prática conjunta de ações, que preservem a vida com respeito e dignidade. É promover o desenvolvimento do presente, sem comprometer as gerações do futuro. É muito mais do que realizar ações sociais internas ou externas, as quais, muitas vezes, têm apenas o objetivo de fazer marketing.
Ser empresa sustentável é poder falar de sustentabilidade tendo o lucro como resultado e não como objetivo principal, e ter práticas condizentes: uma justa distribuição interna de renda, zelo constante pela saúde e segurança, não discriminar o trabalho da mulher - ainda menos valorizado em tantos lugares -, não utilizar trabalho infantil, não praticar ações para levar vantagem, sejam sobre os clientes, sobre a comunidade, sobre os funcionários, dentre tantas outras ações.
Praticar ações de sustentabilidade requer um planejamento do RH diretamente relacionado e integrado com o planejamento estratégico da empresa e que também ultrapasse os limites desse. Antes de ir para ações na comunidade externa é necessário trabalhar bastante a comunidade interna. Não se torna uma empresa sustentável se quem produz seus produtos e serviços não vive plenamente o conceito e não pratica ações sustentáveis, éticas, no dia a dia, dentro ou fora dela.
Respeito à vida, passa por valores, por crenças. Sustentabilidade passa por trabalhar uma comunicação efetiva, por trabalhar as relações de liderança transformacional - que no futuro, seguramente, terão outro nome, talvez associado a uma soma de energias, potenciais e resultados e não mais uma simples relação de comando e subordinação -, passa por trabalhar as questões de saúde, de constante educação e aprendizagem, de criatividade e inovação, de cidadania. É educar para práticas que extrapolam o limite da empresa e que permeiam o indivíduo e a família como um todo, em qualquer lugar, em qualquer situação.
Qual a responsabilidade do RH nesse processo? Com qual velocidade RH vai acompanhar e agir nessa nova enxurrada de acontecimentos e de rápida transformação de valores? O que significa ser um RH sustentável?
Essa é a nova fronteira do RH, que leva a um urgente repensar de valores e de definição do novo caminho, do novo papel. Só que não podemos mais ficar apenas no conceito e na eterna discussão do novo papel, como muito tem acontecido; mas agir, transformar, fazer acontecer, desde agora.
Sobre o autor: Lélio Reinaldo Tocchio é Profissional com mais de 20 anos de experiência na área de RH. Especialista no segmento de serviços.
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