Ferramentas tecnológicas aceleram o acesso ao conhecimento, mas aprender depende da combinação certa de estímulos, métodos e experiências; Conrado Schlochauer, especialista em aprendizagem contínua e autor best-seller, explica

São Paulo, dezembro de 2025 – A popularização da Inteligência Artificial e o crescimento de conteúdos rápidos nas plataformas digitais têm impulsionado a circulação de antigos neuromitos sobre aprendizagem. Ideias como a existência de “estilos de aprendizagem” rígidos, o mito de que “usamos apenas 10% do cérebro” ou a crença de que “apenas força de vontade basta para aprender qualquer coisa” voltam a ganhar espaço.
Embora atraentes, essas concepções não se sustentam em evidências científicas e, justamente por isso, representam um desafio crescente na forma como educadores compreendem o processo de aprendizagem.
Para Conrado Schlochauer, especialista em aprendizagem contínua e autor best-seller, esse cenário não é surpreendente. “A facilidade de criar e distribuir conteúdo, somada ao fascínio por tecnologias emergentes, faz com que informações simplificadas pareçam verossímeis e se espalhem rapidamente”, avalia.
As pesquisas contemporâneas em neurociência mostram que o aprendizado humano é um processo complexo e influenciado por fatores como contexto, motivação, prática e diversidade cognitiva. Pensando nisso, Conrado listou os cinco tópicos que destacam a relação entre IA e neuromitos:
1. IA, popularização do conteúdo e o retorno dos neuromitos
A expansão da Inteligência Artificial e a abundância de conteúdos rápidos nas plataformas digitais reacenderam antigos neuromitos sobre aprendizagem. Essas ideias, embora populares, carecem de base científica e podem distorcer a compreensão do processo de aprender.
“A facilidade de criar e distribuir conteúdo, somada ao fascínio por tecnologias emergentes, faz com que informações simplificadas pareçam verossímeis e se espalhem rapidamente”, afirma Conrado.
2. O que a ciência diz sobre como aprendemos
Neurociência, psicologia cognitiva e estudos em educação mostram que o aprendizado humano é complexo, influenciado por fatores como contexto, motivação, prática e diversidade cognitiva. Não existe fórmula mágica ou atalho universal.
“O que realmente impulsiona o aprendizado é a combinação certa de estímulos, métodos e experiências. Seu cérebro evolui quando é desafiado, quando coloca em prática o que aprende e quando recebe feedback”, destaca o especialista.
3. IA como aliada do aprendizado
A IA pode fortalecer significativamente o aprendizado ao personalizar jornadas de estudo, oferecer feedback imediato, apoiar curadoria de conteúdo e democratizar o acesso ao conhecimento. Porém, isso só funciona quando seu uso é baseado em evidências e intencionalidade pedagógica.
“A IA é capaz de personalizar o estudo sem aprisionar o aprendiz em rótulos e pode acelerar a forma como encontramos e organizamos conhecimento”, relata o autor best-seller
4. O perigo dos atalhos e das promessas milagrosas
Mesmo na era tecnológica, a busca por soluções rápidas continua sedutora. Atalhos, porém, reforçam neuromitos e não substituem o esforço real necessário para aprender.
“Mesmo em uma era de tecnologia avançada, ainda somos atraídos por soluções mágicas. Aprender exige esforço, intenção e estratégia, não existe atalho que substitua isso”, afirma Conrado.
5. IA como potencializadora da aprendizagem ou propagadora de desinformação
A tecnologia não possui filtro intrínseco contra erros: ela reproduz aquilo que encontra. Assim, quando alimentada por crenças equivocadas, pode disseminar desinformação ainda mais rapidamente. Por outro lado, quando guiada por ciência e boas práticas, torna-se uma boa aliada do desenvolvimento humano.
“A IA não corrige mitos por conta própria. Ela replica aquilo que encontra. Quando guiada pela ciência, é uma aliada; quando guiada por neuromitos, se torna parte do problema”, destaca Schlochauer.
Nesse sentido, a discussão sobre neuromitos e recursos digitais passa a ser também cultural: trata-se de construir uma relação mais madura com o conhecimento, na qual experimentação, reflexão e autonomia têm tanto peso quanto qualquer inovação. Assim, mais do que definir se a IA é aliada ou ameaça, é preciso pensar nas atitudes diante do aprender para que façamos escolhas que ampliem, em vez de limitar, nossas possibilidades de crescimento.
Sobre Conrado Schlochauer– É especialista em aprendizagem contínua, pesquisador, consultor e fundador da nōvi – a lifewide learning company. Mestre em Criatividade pela PUC-SP e doutor em Aprendizagem de Adultos pelo Instituto de Psicologia da USP, dedica-se há três décadas a repensar os modelos tradicionais de educação corporativa, promovendo novas formas de aprender e ensinar nas organizações e fortalecendo culturas de aprendizagem mais vivas, eficientes e inovadoras. É casado e pai de três adolescentes, que também o inspiram a observar, na prática, os caminhos da aprendizagem humana. Em 2021, publicou o best-seller Lifelong Learners: o poder do aprendizado contínuo, e em 2025, seu segundo livro Aprendizado Incidental- o poder do lifewide learning.

