{"id":13820,"date":"2016-01-01T00:00:15","date_gmt":"2016-01-01T02:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/?p=13820"},"modified":"2015-12-30T20:49:05","modified_gmt":"2015-12-30T22:49:05","slug":"guerras-e-guerras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/guerras-e-guerras\/","title":{"rendered":"Guerras e guerras"},"content":{"rendered":"<div align=\"center\">\n<figure id=\"attachment_13380\" aria-describedby=\"caption-attachment-13380\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/tomcoelho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-13380\" src=\"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/tomcoelho.jpg\" alt=\"Tom Coelho\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/tomcoelho.jpg 150w, https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/tomcoelho-100x100.jpg 100w, https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/tomcoelho-42x42.jpg 42w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13380\" class=\"wp-caption-text\">Tom Coelho<\/figcaption><\/figure>\n<p><b><i>&#8220;Combater a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais dura das guerras,<br \/>\nvencer a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais bela das vit\u00f3rias.&#8221;<\/i><br \/>\n(Friedrich von Logau)<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\">\n<p>Desde pequeno acostumei-me com a guerra.<\/p>\n<p>Acho que por influ\u00eancia de meus pais \u2013 e um cara chamado Freud disse que as coisas sempre come\u00e7am assim \u2013 passei a considerar a guerra um ato normal, quase essencial.<\/p>\n<p>Primeiro foi uma guerra para sair do conforto do ventre de minha m\u00e3e, onde eu tinha alimento e seguran\u00e7a, num dia que chamaram de parto e que depois deram o nome, talvez s\u00f3 para me tapear, de anivers\u00e1rio. Eu chorei muito e esperneei ainda mais naquele dia. Mas n\u00e3o teve jeito. Tiraram-me de l\u00e1, fazendo-me ver um clar\u00e3o que quase me cegou. Ainda levei um tapa no traseiro sem motivo algum! Os anos seguintes me mostraram que raramente adianta chorar e espernear&#8230;<\/p>\n<p>Depois veio uma guerra particular bem interessante que consistia em ficar em p\u00e9 e aprender a andar. Meu pai guerreava para comprar fraldas e leite em p\u00f3, enquanto minha m\u00e3e tamb\u00e9m travava outra guerra que se estenderia por anos: fazer-me comer o que ela colocava no prato, o que envolveria coisas como f\u00edgado e ervilha, em vez de chocolate e gelatina.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelos quatro anos de idade fui apresentado a um verdadeiro arsenal de guerra. Era um come\u00e7o de ano e todo mundo pulava e cantava muito numa festa que atendia pelo nome de Carnaval. Ganhei uma esp\u00e9cie de bisnaga de pl\u00e1stico que a gente enchia de \u00e1gua e depois sa\u00eda molhando a todos que se atrevessem passar pela frente. Ganhei tamb\u00e9m umas armas feitas de papel \u2013 parece que se chamavam confete e serpentina. Estas eram guerras bem animadas!<\/p>\n<p>Ah, lembro-me tamb\u00e9m dos bombardeios a\u00e9reos com batatas fritas atiradas do 18\u00ba andar de um pr\u00e9dio onde estive hospedado durante uma viagem de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Anos depois, viriam as guerras que guardo com mais carinho na mem\u00f3ria. A guerra de almofadas que come\u00e7ava na sala e terminava como guerra de travesseiros no quarto. Foi uma \u00e9poca de desenvolvimento de t\u00e1ticas de guerrilha. Eu me entrincheirava atr\u00e1s do sof\u00e1 e espalhava sapatos e chinelos-mina pela sala e corredores.<\/p>\n<p>Trocar a TV, o videogame e as brincadeiras com os colegas pelas tarefas escolares eram uma guerra e tanto. O mesmo para arrumar o quarto, tomar banho e ir dormir cedo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veio uma s\u00e9rie de outras guerras. Guerra para ser aceito pelo time de basquete do clube, mesmo sendo baixinho. Guerra para tirar boas notas e se destacar na escola. Guerra para entender as transforma\u00e7\u00f5es que os horm\u00f4nios provocavam no corpo. Guerra para criar coragem e convidar aquela garotinha para sair. Guerra para tomar a iniciativa do primeiro beijo.<\/p>\n<p>Mais alguns pares de anos e as guerras seguintes foram tomando conota\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria. Guerra para passar no vestibular. Guerra para obter o diploma. Guerra para conseguir um emprego e, estando nele, aprender a aceitar a hierarquia \u2013 \u00e0s vezes, quase militar \u2013, as ordens impingidas de cima para baixo, os conchavos nos corredores, as conspira\u00e7\u00f5es no <em>hall<\/em> do caf\u00e9, as armadilhas no elevador. Guerras corporativas engendradas por coron\u00e9is sem patente, travadas por soldados muitas vezes lan\u00e7ados a campo sem treinamento e provis\u00f5es. Guerra contra a concorr\u00eancia, sem interesse na diplomacia. Guerra contra a inefici\u00eancia, sem previs\u00e3o de armist\u00edcio. Guerra pelo consumidor, por sua prefer\u00eancia e fidelidade.<\/p>\n<p>E, nesta toada, guerra para encontrar uma alma g\u00eamea. Guerra para seduzi-la a casar-se e, depois, a separar-se. Guerra pela cust\u00f3dia dos filhos. Guerra para montar uma empresa, pagar sal\u00e1rios, pagar impostos \u2013 e, de repente, ter que fechar a empresa. Guerra contra o aumento da gasolina. Guerra contra os juros do cheque especial.<\/p>\n<p>Lendo os jornais observo o desenrolar de outros tipos de guerra. Guerra pela demarca\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, guerra pelo petr\u00f3leo, guerra pela autoridade. E, talvez a pior de todas: a guerra em nome de Deus, a que chamaram de guerra santa, apenas para envolver de corpo e alma milh\u00f5es de inocentes, jovens ou maduros, mas que na verdade atende aos mesmos preceitos de terra, dinheiro e poder de todas as guerras convencionais.<\/p>\n<p>Hoje, j\u00e1 adulto, dei-me por conta de como nossas guerras v\u00e3o perdendo significado real \u00e0 medida em que nossas pernas crescem. As guerras migram do prazer para a ignor\u00e2ncia, da pureza para a intoler\u00e2ncia. Bilh\u00f5es de d\u00f3lares, euros e libras s\u00e3o gastos para matar mais gente, quando poderiam amenizar a dor e o sofrimento, a fome e a mis\u00e9ria, de outros milh\u00f5es espalhados pelo mundo.\u00a0 <strong>Bilh\u00f5es de reais s\u00e3o investidos em produtos que n\u00e3o s\u00e3o desejados, em tecnologias que n\u00e3o ser\u00e3o usadas, em treinamentos que n\u00e3o proporcionam aprendizado, em confraterniza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o geram integra\u00e7\u00e3o. <\/strong>Tudo porque as na\u00e7\u00f5es tratam as outras como pa\u00edses, isolando-se em torno de seus interesses. Tudo porque as empresas tratam seus colaboradores como m\u00f3biles, fertilizando o terreno para uma guerra civil ao n\u00e3o definirem seus valores, miss\u00e3o e ideais de forma compartilhada.<\/p>\n<p>Olhamos para o lado e vemos a guerra para saber quem avan\u00e7ar\u00e1 primeiro o sem\u00e1foro fechado, a guerra para determinar quem vencer\u00e1 a licita\u00e7\u00e3o, a guerra contra o narcotr\u00e1fico, a guerra pela sobreviv\u00eancia. Nesta hora vemos que Darwin enganou-se, que a sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural porque a natureza quer, mas porque o homem assim o deseja.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, coloco-me diante de minha maior guerra pessoal: a de entender o porqu\u00ea de as coisas serem assim. Compreender como fui me deixar convocar por este ex\u00e9rcito de insanos. E imaginar em qual ponto no espa\u00e7o e em que momento no tempo desgarrei-me da crian\u00e7a que vivia e amava a guerra, como ela deveria ser.<\/p>\n<p><strong>Sobre o autor:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tom Coelho\u00a0<\/strong>\u00e9 educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 17 pa\u00edses. \u00c9 autor de \u201cSomos Maus Amantes \u2013 Reflex\u00f5es sobre carreira, lideran\u00e7a e comportamento\u201d (Flor de Liz, 2011), \u201cSete Vidas \u2013 Li\u00e7\u00f5es para construir seu equil\u00edbrio pessoal e profissional\u201d (Saraiva, 2008) e coautor de outros cinco livros.<\/p>\n<p><strong>site:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.tomcoelho.com.br\/\">www.tomcoelho.com.br<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.setevidas.com.br\/\">www.setevidas.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>e-mail:\u00a0<a href=\"mailto:tomcoelho@tomcoelho.com.br\">tomcoelho@tomcoelho.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.meurhnaweb.com.br\/\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/rhnydus.gif?zoom=1.5&amp;resize=620%2C82\" srcset=\"http:\/\/i1.wp.com\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/rhnydus.gif?zoom=1.5&amp;resize=620%2C82\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"82\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde pequeno acostumei-me com a guerra.<br \/>\nAcho que por influ\u00eancia de meus pais \u2013 e um cara chamado Freud disse que as coisas sempre come\u00e7am assim \u2013 passei a considerar a guerra um ato normal, quase essencial.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":13380,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[461],"tags":[2607,1570,323],"table_tags":[],"class_list":["post-13820","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-tom-coelho","tag-guerra","tag-sociedade","tag-trabalho","entry"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13820"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13820\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13820"},{"taxonomy":"table_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/table_tags?post=13820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}