{"id":9432,"date":"2013-05-01T00:01:18","date_gmt":"2013-05-01T03:01:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/?p=9432"},"modified":"2013-04-30T10:57:04","modified_gmt":"2013-04-30T13:57:04","slug":"wagner-siqueirao-patrao-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wagner-siqueirao-patrao-de-si-mesmo\/","title":{"rendered":"O Patr\u00e3o de Si Mesmo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_9508\" aria-describedby=\"caption-attachment-9508\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9508\" title=\"Adm. Wagner Siqueira\" src=\"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/wagner.jpg\" alt=\"Adm. Wagner Siqueira\" width=\"150\" height=\"150\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9508\" class=\"wp-caption-text\">Adm. Wagner Siqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>A luta de classes entre patr\u00f5es e empregados se transferiu para o \u00edntimo de cada trabalhador. N\u00e3o mais se d\u00e1 por meio da media\u00e7\u00e3o, da negocia\u00e7\u00e3o e do diss\u00eddio dos sindicatos. Esta \u00e9 a raz\u00e3o intr\u00ednseca do desprest\u00edgio dos movimentos sindicais em todo o mundo.<\/p>\n<p>A nova realidade cotidiana do universo das organiza\u00e7\u00f5es transforma o trabalhador numa esp\u00e9cie de empregador de si mesmo. O profissional emprega o corpo e entrega a alma ao trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 cada vez mais presente que a hist\u00f3rica luta de classes entre capital e trabalho, t\u00e3o bem descrita por Marx, transfere-se hoje para o interior do indiv\u00edduo como pessoa.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de suic\u00eddios que ocorrem nas mais diversas corpora\u00e7\u00f5es em todo o mundo \u00e9 uma das mais delet\u00e9rias conseq\u00fc\u00eancias da forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho produzida para atender \u00e0s novas necessidades da sociedade de mercado, que muitos no mundo globalizado denominam de neoliberal.<\/p>\n<p><strong>O fordismo j\u00e1 n\u00e3o rege a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho&#8230;<\/strong> <strong>Muito menos as descobertas das ci\u00eancias do comportamento humano.<\/strong><\/p>\n<p>Os princ\u00edpios da Administra\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica t\u00e3o bem sustentados originalmente por Ford, Taylor, Fayol, Gulick e muitos outros j\u00e1 n\u00e3o mais parametrizam a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a gest\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es. Nem o fazem os postulados da Pesquisa de Hawthorne, marco determinante da Escola de Recursos Humanos e dos avan\u00e7os da\u00ed decorrentes que redundaram no desenvolvimento das ci\u00eancias do comportamento humano no trabalho.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo, ou seja, at\u00e9 o segundo ter\u00e7o do S\u00e9culo XX, os sindicatos se batiam preponderantemente para reduzir as jornadas de trabalho, para aumentar os sal\u00e1rios e para conquistar novos benef\u00edcios e vantagens extra-salariais e, em menor escala, tentavam controlar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho pela via das negocia\u00e7\u00f5es e dos diss\u00eddios coletivos. Mas, de forma alguma, atuavam diretamente nos processos e procedimentos que se passavam por dentro do pr\u00f3prio trabalho, na natureza ou na ess\u00eancia do trabalho em si mesmo.<\/p>\n<p>Este foi o sistema produtivo que permitiu grandes avan\u00e7os da humanidade ao longo do s\u00e9culo passado, o florescimento da sociedade de consumo, o desenvolvimento econ\u00f4mico das na\u00e7\u00f5es e a melhoria substantiva da qualidade de vida de parcelas expressivas da popula\u00e7\u00e3o mundial. Contribuiu tamb\u00e9m, claro, para aprofundar e para explicitar as desigualdades e disparidades socioecon\u00f4micas existentes entre na\u00e7\u00f5es, dentro das pr\u00f3prias sociedades e entre os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>De forma alguma, no entanto, as a\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o sindical tratavam do percurso existencial dos trabalhadores como pessoas e por onde se oxigenavam e se renovavam como seres humanos. Bem, pelo menos at\u00e9 os primeiros resultados das investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da F\u00e1brica de Hawthorne, da Western Electric, e dos avan\u00e7os posteriores das ci\u00eancias do comportamento humano nas organiza\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 acima destacado.<\/p>\n<p><strong>Os trabalhadores respiravam o ar puro da renova\u00e7\u00e3o humana fora do trabalho&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores se dedicavam exaustivamente a seus trabalhos, em duras jornadas laborais, mas se oxigenavam fora dele, ou melhor, respiravam a renova\u00e7\u00e3o e a restaura\u00e7\u00e3o humana fora das organiza\u00e7\u00f5es em que trabalhavam, bem distantes do que realizavam no cotidiano em suas estafantes jornadas laborais.<\/p>\n<p>Respiravam o ar puro da renova\u00e7\u00e3o existencial pela participa\u00e7\u00e3o intensa em inst\u00e2ncias externas ao trabalho, como associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias diversas, ativa vida social e religiosa, e, principalmente, a pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Essas eram as suas v\u00e1lvulas de escape de oxigena\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s do sal\u00e1rio e do emprego podiam ascender ao mundo, participar da vida social de suas comunidades, garantir qualidade de vida \u00e0s suas fam\u00edlias, integrar-se em plenitude ao universo civilizat\u00f3rio da sociedade em que viviam.Eram objeto e sujeito de amor e de trocas afetivas, de rela\u00e7\u00f5es e de ambientes sociais, de participa\u00e7\u00e3o e de pertencimento.O trabalho era, de fato, o divino castigo que deveriam cumprir ou o pre\u00e7o a ser pago para desfrutar de uma vida em plenitude fora dele.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 n\u00e3o mais respiram e se oxigenam existencialmente como faziam antes. As exig\u00eancias crescentes das novas formas de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade de mercado sequestram as alternativas de dedica\u00e7\u00e3o a outras formas distintas de conviv\u00eancia humana, na fam\u00edlia e nas associa\u00e7\u00f5es formais ou informais da comunidade nas quais antes integravam e participavam ativamente. Os suic\u00eddios e as sequelas psicol\u00f3gicas dos trabalhadores no universo da sociedade e no mundo das organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o o grito de desespero dos que sucumbem pela impossibilidade de restaura\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">\u00c9 um desvio equivocado de percep\u00e7\u00e3o atribuir simplesmente a raz\u00f5es individuais isoladas a incid\u00eancia recrudescente de casos de suic\u00eddios e de s\u00edndromes de <strong><em>burn out<\/em><\/strong> ocorrentes no mundo do trabalho em geral. S\u00e3o o grito de revolta ante uma situa\u00e7\u00e3o que ultrapassa os limites do equacionamento individual para se transformar numa epidemia social.O suic\u00eddio e as doen\u00e7as laborais psicol\u00f3gicas abrem uma fresta para o trabalhador respirar, mudando a sua realidade de um ambiente contaminado irrespir\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que se suicida nos convoca para ver o que \u00e9 vis\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 visto: a nova organiza\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o est\u00e1 consciente de que produz mortos-vivos, verdadeiros zumbis fanatizados pelo trabalho, trabalhadores devotos \u00e0 organiza\u00e7\u00f5es, agora transformadas em seitas de adora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar do discurso da imprescindibilidade e da import\u00e2ncia da equipe na obten\u00e7\u00e3o da excel\u00eancia de resultados, nunca se praticou tanto a avalia\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p>A exacerba\u00e7\u00e3o do cumprimento de metas individuais de desempenho agrava e aprofunda a dissens\u00e3o entre colegas, viola o princ\u00edpio da solidariedade e da coopera\u00e7\u00e3o subjacente no trabalho, devasta ambientes sociais, exacerba o ego\u00edsmo e a competitividade predat\u00f3ria de um contra um, de um contra alguns, de um contra todos e de todos contra todos.<\/p>\n<p><strong>A nova organiza\u00e7\u00e3o do trabalho produz a fratura existencial do colaborador&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o individualizada produz uma divis\u00e3o no interior da pessoa, entre a necessidade de cumprimento individualizado de metas e as necessidades de apoio, de solidariedade e de coopera\u00e7\u00e3o inerentes \u00e0 natureza humana pr\u00f3prias de pessoas envolvidas na realiza\u00e7\u00e3o de tarefas comuns.<\/p>\n<p>O trabalhador termina por se transformar numa esp\u00e9cie de empregador de si mesmo, um empreendedor interno da organiza\u00e7\u00e3o, como de forma eufem\u00edstica as diretrizes ditas modernas de gest\u00e3o de pessoas manipulativamente gostam de cham\u00e1-los.<\/p>\n<p>Se antes j\u00e1 se dizia que os trabalhadores j\u00e1 n\u00e3o tinham raz\u00e3o para se sentirem em contradi\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o, porque os interesses poderiam ser compatibilizados ou administrados pela aplica\u00e7\u00e3o das boas teorias gerenciais, agora o assalariado se transforma em seu pr\u00f3prio patr\u00e3o, no empregador de si mesmo. \u00c9 a resposta incisiva da sociedade de mercado ao problema da luta de classes, sempre presente entre capital e trabalho, entre sal\u00e1rio e lucro, entre as necessidades do empregador e do empregado.<\/p>\n<p>Se os trabalhadores j\u00e1 n\u00e3o tinham mais raz\u00e3o para se sentirem em contradi\u00e7\u00e3o com o capital, como doutrinavam as teorias das organiza\u00e7\u00f5es, agora fazem do assalariado o seu pr\u00f3prio patr\u00e3o, o empregador de si mesmo, o empreendedor interno do neg\u00f3cio em que trabalha. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais luta de classe, os interesses intr\u00ednsecos de ambas as partes se concentram indiviso no \u00edntimo de cada trabalhador como pessoa. Eis ai um sofisma de falsa causa. Em verdade, tanto o capital, agora travestido massivamente de capital financeiro, quanto o trabalho continuam plenamente presentes. Apenas agora o conflito entre sal\u00e1rio e lucro, entre capital e trabalho, transbordou para um antagonismo social a ser equacionado e resolvido no interior do pr\u00f3prio indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Antes, o conflito social estava regulado pelas media\u00e7\u00f5es sindicais entre patr\u00f5es e empregados, por normas e regulamentos legais de governo, pela a\u00e7\u00e3o direta do Estado, principalmente pelas decis\u00f5es dos tribunais de justi\u00e7a. \u00c9 evidente que estas condicionantes institucionais ainda subsistem, mas n\u00e3o mais como protagonistas exclusivos da resolu\u00e7\u00e3o de querelas entre patr\u00f5es e empregados. Agora o conflito se encontra intensamente dentro do trabalhador como pessoa.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente a incapacidade de as pessoas administrarem esse conflito interior que tem no suic\u00eddio e nas sequelas psicol\u00f3gicas do trabalho a sua v\u00e1lvula de escape, a solu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de um impasse inusitado que n\u00e3o vislumbra alternativas de equacionamento ganha\/ganha se mantido o quadro de circunstancias da ideologia dominante de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho prevalecente nos tempos presentes na sociedade de mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Sobre o autor:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Adm. Wagner Siqueira: <\/strong>Vereador pelo Rio de Janeiro. Atual Presidente do Conselho Regional de Administra\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro e Membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias da Administra\u00e7\u00e3o. Foi Secret\u00e1rio de Administra\u00e7\u00e3o, Presidente do Riocentro e Secret\u00e1rio de Assist\u00eancia Social da Prefeitura do Rio. Consultor de organiza\u00e7\u00f5es e autor de livros e diversos artigos sobre as ci\u00eancias da Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>site: <a href=\"http:\/\/www.wagnersiqueira.com.br\/\">www.wagnersiqueira.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>e-mail: <a href=\"mailto:wagners@attglobal.net\">wagners@attglobal.net<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.meurhnaweb.com.br\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9345 aligncenter\" style=\"border: 0px currentColor;\" title=\"RHNydus\" src=\"http:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/nydusok.gif\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"60\" srcset=\"https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/nydusok.gif 468w, https:\/\/www.rhevistarh.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/nydusok-300x38.gif 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta de classes entre patr\u00f5es e empregados se transferiu para o \u00edntimo de cada trabalhador. 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