Faltam vagas afirmativas para nós trans’: os desafios da comunidade LGBTQIA+ no mercado de trabalho

Representantes de recursos humanos de 14 estados brasileiros, afirmam que 38% das empresas têm restrições para a contratação de pessoas LGBTQIAP+

Créditos: Freepik.

Maio de 2023 – No dia 17 de maio é celebrado o Dia Internacional Contra a Homofobia. A data marca um importante avanço na luta pelos direitos do movimento LGBTQIAP+, grupo que inclui lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis, queer, intersexuais, assexuais e pansexuais. A escolha da data foi feita em razão da remoção da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Sáude (OMS) em 1990.

São 33 anos de luta marcados pela conquista de direitos e garantias fundamentais. Mas, apesar dos avanços, tudo indica que o caminho a percorrer ainda é longo, principalmente quando falamos da inclusão dessa comunidade no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada em 2020, por representantes de recursos humanos de 14 estados brasileiros, dentre eles, São Paulo, Minas Gerais e Piauí, revelou que 38% das empresas têm restrições para a contratação de pessoas LGBTQIA+.

O dado mostra-se expressivo, pois se trata de uma minoria social que representa 19 milhões de brasileiros. Ainda assim, para muitas empresas e indústrias, a orientação sexual é um fator a ser considerado quando se trata da contratação.

Segundo Tábata Silva, gerente do portal de recolocação profissional Empregos.com.br, isso é resultado de um extenso histórico de exclusão que ainda traz reflexos na atualidade. “A presença dos LGBTQIA+ no mercado de trabalho ainda enfrenta muitas barreiras e desafios. São poucas as empresas que têm academias ou comitês de diversidade, que possuem ações para educar colaboradores através de bate-papos, palestras, rodas de discussões e treinamentos para acolher essa comunidade”, afirma a especialista.

Com 38 anos, a analista de diversidade e inclusão, Isabella de Avila, entrou no mercado de trabalho há menos de cinco anos, pois não via o trabalho formal como uma possibilidade. “Eu não via pessoas como eu atuando no mercado. Essa pauta ganhou força nos últimos tempos, mas onde as pessoas trans trabalhavam há quatro anos? Estamos nesse processo, mas as vagas afirmativas ainda são poucas e bem específicas comparadas a outras vagas de diversidade e inclusão”, contou em depoimento ao portal Empregos.com.br.

Para aqueles que estão dentro das empresas, o cenário continua longe de ser o ideal. Conforme o estudo realizado pelo Center for Talent Innovation, 41% dos funcionários dessa comunidade, já sofreram algum tipo de discriminação no ambiente de trabalho em razão da sua identidade de gênero ou orientação sexual. E o preconceito começa antes mesmo de conseguir a vaga de emprego.

Em seu relato, Isabella conta que já escutou durante entrevistas de emprego, frases como “você vai passar por transfobia aqui na empresa, está preparada?”. “Quando ouvi isso, eu pensei ‘já sofro preconceito em vários ambientes e agora vou sofrer também dentro da empresa’. E muitas vezes a gente aceita passar por mais um tipo de constrangimento porque precisamos pagar nossas contas”.

Para Alex Araujo, especialista em gestão de pessoas e CEO da 4Life Prime Saúde Ocupacional – líder em saúde e segurança do trabalho – mesmo com os avanços culturais, a sociedade ainda coloca a comunidade LGBTQIAP+ numa linha de marginalidade e por conta da discriminação, muitos nunca tiveram a oportunidade de ter o primeiro emprego. “Hoje, é necessária a criação de políticas, projetos e cursos que ajudem essas pessoas não apenas a se tornarem profissionais aptos, mas que também as insiram no mercado de trabalho”, explica Araujo.

Araujo complementa que a incidência de casos de homofobia no país, considerado o que mais mata transexuais no mundo, desencadeia problemas de saúde mental entre a comunidade LGBTQIAP+. Uma pesquisa realizada pelo Linkedin, em 2022, constatou, que 47% dos entrevistados que pertencem a comunidade tendem a sofrer mais com esse tipo de problema, enquanto 21% das pessoas que se identificam como heterossexuais informaram sofrer da mesma condição.

As políticas para integração da comunidade LGBTQIAP+ no mercado de trabalho, é um caminho a ser adotado cada vez mais pelas empresas. Isso acontece, porque os consumidores estão se tornando mais conscientes e responsáveis pelo o que compram ou pelos serviços que contratam. Aumentando suas exigências e pressionando as empresas a estabelecerem um compromisso com a responsabilidade social.

Algumas das grandes corporações que abraçaram a causa e estão sendo referências no mercado, por adotarem essas políticas de inclusão são: Grupo Pão de Açúcar, Natura, Banco Itaú e Ambev. A Natura, por exemplo, oferece benefícios de saúde para casais LGBTQIAP+ há 15 anos, garante a adoção do nome social entre seus funcionários, realiza ações de recrutamento de homossexuais, além de oferecer cursos profissionalizantes para trans em parceria com a Casa 1.

Os resultados mostram que, mais do que fortalecer a imagem da companhia, essas políticas geram uma maior visibilidade para a cultura organizacional alinhada ao desenvolvimento e às demandas da sociedade. As empresas que se comprometem com as práticas de inclusão desse público, tendem a ser 33% mais lucrativas, segundo a consultoria americana Mckinsey.

Tudo indica que a adoção de políticas de incentivo e integração para pessoas LGBTQIAP+, é um movimento crescente dentro das empresas. Além de ser importante para construção de uma nova visão no mercado de trabalho, esse impulso à diversidade caminha positivamente na garantia de direitos dessa população e na luta contra a homofobia.

“É importante que empresas ofereçam políticas que ajudem pessoas da comunidade LGBTQIAP+ a se sentirem seguras dentro do ambiente de trabalho. Seja por meio da inclusão de políticas não-discriminatórias e antiassédio, que incentivem a denúncia e expliquem os tipos de condutas a serem tomadas quando alguma política for violada; pela implementação de ações educativas, através de palestras e atividades, que tenham a participação de todos os funcionários da empresa; e pela promoção de lideranças inclusivas, tornando o ambiente e a estrutura organizacional do local mais alinhada à cultura da diversidade”, complementa Araujo.


 

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